Nos últimos anos, sempre que o Presidente da República profere o discurso sobre o Estado da Nação, os deputados da UNITA têm exibido cartões vermelhos como forma de protesto. Entendemos que a manifestação de posições políticas é legítima, desde que não perturbe a ordem dos trabalhos parlamentares, não comprometa o decoro da Assembleia Nacional nem desvie indevidamente a atenção do discurso presidencial.
Sendo este o último discurso sobre o Estado da Nação do Presidente João Lourenço no exercício das suas funções, esperamos que a UNITA tenha um comportamento cordial e institucional, tendo em conta que o Chefe de Estado se encontra no final do seu segundo mandato. Esta ocasião representa também uma oportunidade para demonstrar que a oposição não está apenas no Parlamento para contestar as acções do Executivo, mas que sabe igualmente reconhecer os momentos de diálogo, reconciliação, tolerância e respeito mútuo.
Ontem, durante a inauguração do memorial das vítimas dos conflitos armados, presenciámos um momento bonito e digno de registo: o Presidente da República cumprimentou calorosamente o presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, que correspondeu de forma respeitosa, com uma vénia. Foi um gesto que transmitiu uma mensagem de civilidade e respeito entre figuras que representam diferentes sensibilidades políticas. Gostaríamos de ver o mesmo espírito hoje, na Assembleia Nacional.
Na nossa perspectiva, o discurso de hoje será também uma oportunidade para o Presidente João Lourenço apresentar o balanço dos seus dois mandatos à frente dos destinos do país. Trata-se, por isso, de um momento solene, que merece a atenção e o respeito de todos os angolanos, independentemente das suas convicções políticas ou cores partidárias.
Não seria desejável que esta ocasião fosse marcada por vaias, provocações ou manifestações que perturbassem a solenidade do acto. Mais do que um momento de confronto, deve ser uma demonstração de maturidade política, elevação do debate e respeito pelas instituições.
A democracia não se mede apenas pela liberdade de protestar ou de discordar. Mede-se também pela capacidade de ouvir, respeitar o adversário político e reconhecer que, apesar das diferenças, todos fazemos parte da mesma nação.
Que hoje seja uma verdadeira festa da democracia, da pluralidade de ideias, da tolerância e do respeito institucional. Angola está acima de qualquer partido, e a dignidade das suas instituições deve ser um compromisso de todos.
Por: Madaleno Miguel
